Tenho contato com religiosos com frequência. Não falo de apenas crentes, falo de pessoas realmente devotas que veem na adoração à deus um ponto central na sua vida e que acham que todos deveriam fazer o mesmo, o tipo de pessoa que quando descobre que sou ateu, pergunta se sou louco. É de se imaginar que se todas soubessem sobre isso, eu não teria um minuto de paz. Nessas situações em que sou questionado sobre minha religião eu confesso que muitas vezes, por ser batizado e ter feito eucaristia, eu digo que sou católico.
Sinto uma frustração imensa quando me vejo “obrigado” a dizer isso, quase como se eu estivesse me traindo. E pode-se até se dizer que é uma postura covarde, o que eu não discordo totalmente, mas certas situações não se ganha nada sendo “corajoso”. Em meu primeiro emprego ainda na adolescência não tinha condições de dizer pra minha patroa evangélica que eu era ateu. Além de sofrer incomodas tentativas de evangelização, corria o risco de ela passar a agir comigo com má-vontade, o que eu, um jovem aprendiz na época, morria de medo que acontecesse.
Na própria escola isso era motivo de exclusão, pois o assunto da maioria das crianças era sobre a catequese e o que faziam lá, sendo esse um dos motivos por eu ter cedido à pressão de minha mãe pra que eu fizesse. Noutra ocasião, uma única vez que eu inicialmente me recusei a dar as mãos e rezar, um coro de vozes ficou insistindo e levantasse e “deixasse de frescura”, incluindo a própria professora (que ao menos usou um linguajar mais adequado em sua insistência).
Mesmo hoje em dia ainda me vejo tendo que usar desse artificio, como ao conhecer os pais de uma amiga que eram bastante religiosos, ou mesmo numa recente aula de inglês. Não me orgulho disso, mas em certas situações ainda penso nisso com a saída fácil pra evitar conflitos e não vejo mesmo necessidade em debater com cara religioso que me aparece.
Sofri com essa necessidade de me passar por católico a vida toda. E isso é um defeito meu, mas também um defeito da sociedade. E espero um dia poder dizer que sou ateu sem correr o risco de perder amigos, família, emprego.




14 comentários:
Cara, é exatamente o mesmo que ocorre comigo.
Diferença é que eu ainda tenho 17 anos apenas, mas é exatamente o mesmo caso.
Acontece comigo também, só que no meu caso digo que sou agnóstico, e que não vou explicar o que significa, eu peço que pesquisem. E ainda tenho 16 anos.
Ah eu cansei de ficar fingindo, foda-se quem vai se afastar de mim por eu não acreditar no Deus que eles tanto idolatram, to cagando pra essas pessoas pobres de espirito, tenho pena delas. "JESUS IS THE NEW BLACK" haha :)
Cara, isso é foda. Mas acho importante nos declaramos ateus para que isso deixe, mesmo que aos poucos, de ser um tabu.
nesse momento é o sujo falando do mal lavado, pois meus pais e parentes não sabem que sou ateu, eu não minto para ninguém, mas não tomarei a iniciativa de contar.
Eu falo a verdade.
Qual sua idade Luis?
Desde os 40 anos eu assumi que sou ateu. Ficar velho tem as suas vantagens.
Outra vantagem foi o fato de ser empregado de uma empresa pública, pois conheço casos de pessoas que foram demitidas por assumirem ser ateias.
Eu tenho 24 anos e me sinto particularmente à vontade, pois estudo na Unicamp e aqui tem muitos ateus e agnósticos, e não terei problemas em arranjar um emprego no meio acadêmico por não ter religião. Da minha família, a minha mãe é a única que eu tenho certeza que sabe que eu sou ateu, mas não falo muito com ela a respeito disso. Tenho parentes no meu Facebook e alguns deles talvez tenham notado.
Como entendo você. É como se fôssemos suspeitos de um crime, o simples fato de assumir não ter religião nesse país já é muito difícil, imagine assumir que é ateu, então.
haha, eu discuto até o final, um dia achei um loco e a gente ficou duas horas falando e lendo a bíblia, é um saco isso, e ainda tem chamam de um monte de coisas sendo qi vc só ta expressando a sua opinião U.U"
Passei por um constrangimento desses ontem. Sou professor na rede pública e começamos as atividades com uma leitura sobre o poder de deus nas nossas vidas, seguido de um tradicional pai-nosso. Recusei-me a fazer parte da leitura, já que cada um de nós deveria ler uma parte do texto, e apenas me levantei de deis as mãos na "reza", para não soar agressivo demais.
Quando penso que devo ser maleável, imediatamente vem a minha mente a ideia de que os organizadores do evento não estão sendo nem um pouco coerentes, pois não respeitam a diversidade.
Venho a cada dia expressando o meu ateísmo. É uma boa oportunidade para reparar quem serão seus amigos verdadeiros, uma vez que os hipócritas afastarão. Fico feliz por ter encontrado esse espaço. Nós, que compactuamos alguns ideais, devemos nos unir no sentido de possuir uma representatividade mais relevante.
forte abraço.
Sou cristão católico e concordo inteiramente com todos vocês quanto ao constrangimento sofrido por ateus/agnósticos etc, por parte de quem se diz crente em Deus. É uma incoerência com a própria mensagem cristã. E tenho cá minhas dúvidas se alguém que constrange alguém em nome de sua fé, de fato acredita mesmo. Talvez não acredite coisa alguma, mas usa da crença como forma de se impor aos outros. Apenas observo que por vezes o contrário também ocorre, crentes que se sentem constrangidos por assumir a própria fé em ambiente ateu/agnóstico hostil. Acho que nem o crente pode constranger o ateu e nem o ateu constranger o crente. Creio (e experimento isso) na possibilidade de amizade profunda entre ateu e crente. Tudo é questao de maturidade pessoal.
Eu nunca passei por isso, mas posso entender como vc se sente. Eu achei as palavras do Ítalo bem bacanas! Acho que vc pode tentar o que ele falou, ainda mais que ele enriquece o comentário com exemplo que aconteceu com ele.
alguem tem alguma idéia de como falar pra familia ser ter muito choque?
minha familia é catolica praticante,eu sou acólito(sim, estranho), mas há pelo menos 5 anos não acredito em deus.
continuo indo pq tem um pessoal legal na igreja, mais já cansei de ficar fingindo o tempo todo.
HELP
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